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  • GISELLE MENDOZA

Meu Relato de Parto (Humanizado e Domiciliar)



A natureza pra mim sempre foi sedutora! E eu, sempre observei os animais parindo normalmente, a natureza sabendo fazer seu papel e uma quantidade mínima de partos, bem mínima, precisando de intervenções. Porque na nossa espécie tudo parecia ser diferente? Sempre vejo as pessoas tendo seus bebês através de cesáreas. Algumas querem, mas a maioria dos relatos que escuto são de mães que queriam ter normal, mas que alguma coisa aconteceu que acabou numa cesárea. Estranho. A maioria! Um índice bem mais alto que parto normal! E eu, sempre tive certeza absoluta de que não queria uma cirurgia, ao menos que houvesse um bom motivo para violarem meu corpo.

Pensando nisso, corri atras de informações. Sim, porque não é fácil ter um parto respeitoso. Temos que estudar, sair da zona de conforto e não acreditar na maioria dos obstetras. E nessa descobri que não adianta só querer um parto normal, teria que ser muito mais do que isso, porque parto "normal" aqui no Brasil está longe de ser natural, parto normal também costuma vir cheio de violações!


No dia que Manuela chegou, a lua estava redonda e brilhante no céu. Mas eu nem me dei conta.

Era num dia comum de quinta-feira, mais ou menos umas 17h quando fui ao banheiro e lá percebi que se eu continuasse fazendo força, que meu xixi continuava saindo. Incontinência, será? A gestação é cheia dessas coisas doidas! Demorei pra me dar conta. Entrei de baixo do chuveiro e lá aquela água continuava saindo, sem cheiro e sem cor (Com certeza, xixi não era). Por coincidência minha doula me manda uma mensagem querendo saber de mim. Contei a ela: Acho que minha bolsa estourou. Achei que uma bolsa rompendo faria um barulho e sairia aquele aguaceiro de uma só vez. Mas não foi nada disso! Não escutei nada, não senti nada e veio sem dar certeza.

Deixei a equipe em alerta, mas combinei de esperar as contrações surgirem (ainda não estava sentindo nada)e pegarem um bom ritmo para a chegada delas (afinal, nem sempre o trabalho de parto acontece de imediato ao rompimento da bolsa. As vezes, nem no mesmo dia). Avisei ao Fabio que havia saído. Ainda falei pra fazer o que precisava e só ficar atento ao celular (A minha sorte é que ele resolveu voltar de onde estava). Liguei pro meu irmão e no meio da ligação, surgiu a primeira dor. Desliguei. Veio a segunda contração, a terceira.... uma já colada na outra! Entrei no chuveiro com água bem quente pra ver se aliviava. Nada! Saí e avisei ao povo. Tudo começou já em ritmo acelerado.


Sentei no sofá e coloquei num documentário sobre grandes felinos. Foi a última coisa que lembro com nitidez. Com a dor fiquei um pouco fora do ar.

Lembro do Fabio chegando. Nesse momento, ainda no sofá, desliguei meu telefone e deixei por conta dele ir se comunicando com a equipe que já estava a caminho. A essa altura nem lembro mais se estava sentada ou deitada... mas com certeza, me contorcendo muito!

Fabio foi contar os intervalos (quais intervalos?). Estavam de 2 em 2 min e acho que já começaram assim! Mas a dor não tinha intervalo. A cólica não sumia em momento nenhum, só dava seus picos. A dor era alucinante!

A Erica, minha doula, chegou. Lembro dela estar do meu lado. Lembro do cheiro do óleo, das velas acesas.

Logo depois as obstetrizes vieram.


Fiquei no sofá até encherem a banheira. Parecia uma eternidade! Rs. Achava que iria ser uma boa alternativa de alívio para a minha dor, mas na banheira continuava sem posição confortável. A única coisa que dava um certo alívio era quando a enfermeira jogava a água quente na minha lombar.

não aceitava massagem e nada de toques (Achei que eu fosse adorar. rs), mas a gente fica meio arisca. Tudo parecia piorar a minha dor.

O pior das contrações não era a dor no útero como imaginava, e sim na região do sacro / cóccix.

Perdi totalmente a noção do tempo. Quando Manuela nasceu, achava que ainda era por volta de 22h, mas era quase 3h da manhã. Não conseguia escutar quase nada que falavam em volta. Todas as palavras pareciam cochicho. A gente fica na alucinação mesmo, e na concentração. Perde a noção de muita coisa em volta. Era eu, meu corpo e Manuela. Não cabia mais ninguém, não cabia mais nada!

Lembro que tocava um CD do Almir Sater escolhido pela minha doula, mas parecia tocar somente 2 músicas, Cubanita e outra que não lembro. Parecia ficar repetindo somente essas duas, mas depois, perguntando pro Fabio, descobri que rodava o CD inteiro. "Viajei"! kkk

Minhas contrações passaram a vir com uma vontade gigante de fazer força. O corpo fazia força por mim. Querendo ou não, eu era obrigada a fazer. O Corpo inteiro se contrai. Até na cabeça sentia contração. E que dor era aquela na lombar! Parecia que um caminhão passava por cima de mim quebrando a minha coluna.

Pensei em desistir, falei várias vezes que não estava aguentando, não queria mais sentir aquilo, era desesperador! Queria que parasse de imediato. Mas a equipe sabia que eu daria conta!


Tentavam me colocar de pé, não conseguia. Sair da água estava muito difícil. A gravidade se tornou bem pesada e meu corpo tinha a necessidade de se jogar no chão.

Lembro do Fabio me segurando pra tentar me colocar de pé. De lá me levaram pra banqueta, chuveiro, em pé na escada, mudei várias vezes de lugar... Quando estava na escada comecei a voltar pra realidade. Passei a reparar melhor em minha volta e ao movimento das pessoas. Em alguns momentos o Simba (meu gato) vinha e olhava. Foi nessa hora que a dor acalmou um pouco. Voltei pra banqueta. O corpo já não me obrigava a fazer tanta força, eu já estava fazendo por conta própria. A Erica sugeriu fazer cabo de guerra para ajudar no expulsivo. O Fabio segurava meu corpo e a Erica puxava um tecido enquanto eu puxava de volta. Isso potencializou bem a força.

Num momento eu parei de ter controle da minha musculatura e uma sensação de prolapso retal. Imaginei que ela estava vindo. A Denise, enfermeira, pediu pra eu mesma colocar a mão. Fiz e senti o cabelinho da Manuela. Foi um alívio tão grande saber que ela chegaria logo e que tudo aquilo estava no fim. Manuela veio suave, veio tranquila dentro de várias contrações.

Ela foi colocada de imediato no meu colo e ficou de cabecinha baixa. Colocaram o cordão umbilical na minha mão e fiquei sentindo a pulsação. Num momento que Fabio falou, ela olhou pra cima procurando o pai que depois de um tempo cortou o cordão.

Todos os meus planos foram respeitados. Alias, preciso agradecer muito a essa equipe!

A tranquilidade, as expressões de que estava tudo certo, foram fundamentais para a minha paz. Foram elas as responsáveis por eu não pensar em nenhum momento, que alguma coisa ali poderia estar fora do controle.

Ah, passei meu parto comendo chocolate e tomando água de coco. Hehe.

Por fim, contrariando todo mundo, levantei e fui tomar um banho (a gente fica meio tonta). Depois disso, nada melhor que poder descaçar na nossa própria cama e receber um belo café da manhã. :)


*Manu, esse foi o nosso primeiro presente a você. Um parto respeitoso, sem traumas ou intervenções desnecessárias. Onde você também pode decidir o momento em que queria chegar, em que estivesse pronta!

"Não se pode ajudar um processo involuntário, pode-se apenas procurar não perturbá-lo demais" Odent

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